Religiosidade mineira

Morando em Minas há cinco anos confirmei o que já havia percebido há muito tempo - a religiosidade do seu povo. Aconteceu assim: eu estava em Ouro Preto e ao observar a ornamentação das igrejas com tanto ouro, tantos santos e tantos sinais de devoção senti uma estranha energia a me sufocar - era a religiosidade impondo a sua força. Um novo sinal me foi dado tempos depois, quando revi em DVD a apresentação do Grupo Galpão, na sua maravilhosa adaptação da peça Romeu e Julieta. Percebi que os detalhes das vestimentas, dos adereços, cores e imagens de “espíritos santos” usadas no palco traziam intenso simbolismo religioso. Em Minas, esta forma de representação invade todas as áreas, principalmente a das artes: o estilista mineiro Ronaldo Fraga deixa transparecer no seu trabalho de moda forte presença mística. Ele vai fundo na alma do seu povo e deve ser por isso que a sua obra é ao mesmo tempo tão brasileira e tão universal. Outra mineira, Adélia Prado, com sua solidez poética, sintetiza aquilo que seu padrinho literário Carlos Drummond de Andrade um dia escreveu: “anjos da guarda em expedição noturna velam sonhos púberes entre cortinados e grinaldas...”. Anjos da guarda é o que não faltam nas terras altas; Aleijadinho e o barroco local deixaram centenas de testemunhos.




Este forte simbolismo permeia entre os amplos vazios do espaço/tempo mineiro, ora sob formas escancaradas, ora sob formas sutis e aparece nos costumes e nas artes locais; a música e o artesanato são os exemplos mais representativos, pois são eles que carregam o sagrado que ainda vive e respira nas descendências ibéricas/judaicas, ameríndias e africanas do seu povo. Sincretismo que expõe uma pluralidade maior do que em qualquer outro estado brasileiro.

Além da carga mística barroca o mineiro herdou fortes tradições judaicas com a vinda dos chamados cristãos-novos - judeus convertidos à força e que precisavam esconder seus costumes e crenças. Hoje elas são percebidas, mas pouco se conhece as origens. Essas aparecem, principalmente nas zonas rurais nos seus ditos populares, nas tradições espirituais e no modo de ser: o mineiro é calado, escuta mais do que fala, é econômico, pão duro, não desperdiça nada, varre a casa da porta para dentro, dá uma para o santo ao beber algo, joga um punhado de terra no caixão quando ele desce à sepultura, abençoa suas colheitas, coloca um objeto de ouro na criança ao nascer, é melancólico e esconde a comida na gaveta da mesa quando chega alguém em casa, pois não podia se expor como judeu se estava comendo comida kosher.



É devoto de vários santos e muitos ostentam nomes como José, João, Geraldo, Lucas, Marcos, Benedito, Luiz, Gonçalo, Maria, Ana e Aparecida. Devoção enriquecida nas festas populares, tais como a de Reis, São Gonçalo, São Sebastião, do Divino, da Semana Santa, a Reza de Cruz e as dezenas de romarias e procissões, isso só aqui na região onde moro - Sul de Minas. Não raro ouve-se que fulano de tal foi fazer sua visita anual à Basílica de Nossa Senhora Aparecida – aqui perto.

Ao andar pelas estradas rurais, nos antigos caminhos de ir-e-vir se encontram ermidas, capelas, paróquias e igrejas. Foram construídas há muito pelas mãos de algum padre ou bispo que outrora por aqui passaram em suas viagens de catequese e evangelização. Ir à missa aos domingos e respeitar a figura do padre como autoridade religiosa e até política ainda é dever de muitos.




Também percebi que os mineiros usam o nome de Deus a todo momento, principalmente ao se cumprimentarem: Deus te acompanhe. Deus lhe pague. Seja o que Deus quiser. Deus me livre. Deus é pai. Deus te crie. Vá com Deus. Deus te ajude. Juro por Deus. Deus permita, etc.

O historiador Gilberto Furiel me ajuda a finalizar este texto com o seguinte depoimento: “o mineiro é místico, não somente pela própria constituição histórica/religiosa, mas pela própria situação geográfica - as montanhas. As montanhas de Minas provocam êxtase e nos levam a um certo transe. É cenário propício para um olhar interior, uma busca. O mineiro nasceu aos pés das montanhas, caminha por entre a neblina fina dos seus vales e cumes, sente o vento e prova o isolamento e o silêncio, requisitos para uma vida ascética. “ eloizanetti@gmail.com


Fotos de Aiuruoca, por Gilberto Furriel

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